OPINIÃO: A pizzaria chamada Brasil!

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Por General Girão – Deputado Federal (PL-RN)

Há um velho ditado na política brasileira segundo o qual, no Brasil, tudo acaba em pizza.

A expressão traduz uma sensação que o brasileiro conhece bem: surge um escândalo, aparecem denúncias, autoridades trocam acusações, instituições prometem respostas e, depois de algum tempo, tudo parece caminhar para algum tipo de acomodação. A crise passa. Os poderosos permanecem. E o povo fica com a conta.

Estamos vivendo uma das mais graves crises institucionais das últimas décadas. O Brasil já atravessou momentos dramáticos, como o suicídio de Getúlio Vargas, em 1954, e a renúncia de Jânio Quadros, em 1961. Cada período teve suas próprias circunstâncias, mas é impossível olhar para o cenário atual e fingir normalidade.

O que temos visto dentro do Supremo Tribunal Federal chegou a um nível que deveria preocupar qualquer brasileiro, independentemente de posição política.

Ministros trocam acusações, decisões entram em choque, suspeitas envolvendo integrantes da própria Corte alimentam investigações, e a imprensa já chegou a registrar uma verdadeira “guerra de ofícios” entre gabinetes. O caso Banco Master expôs uma crise interna que ultrapassou os limites das divergências jurídicas e atingiu diretamente a confiança da sociedade na mais alta Corte do país.

Queremos investigação séria, transparência e o mesmo rigor para todos. É isso que significa Justiça.

O problema se torna ainda maior quando olhamos para o Poder Legislativo. Câmara e Senado representam diretamente a vontade popular, mas suas presidências, muitas vezes, parecem mais preocupadas em administrar as relações entre as cúpulas dos Poderes do que em exercer, com firmeza, as prerrogativas que a Constituição lhes conferiu.

Não podemos aceitar um Legislativo permanentemente amarrado por cálculos políticos, conveniências ou pelo chamado “mecanismo” de preservação entre aqueles que ocupam o topo da República.

E, enquanto tudo isso acontece, o verdadeiro soberano continua sendo esquecido: o povo.

Muitos brasileiros observam esse cenário com descrença e repetem: “isso não é comigo”, “não me interessa” ou simplesmente “político nenhum presta”.

Essa indignação é compreensível. A indiferença, porém, é perigosa.

Quando o cidadão desiste da política, a política não desiste dele. Continuará decidindo quanto ele paga de imposto, qual segurança terá nas ruas, que educação seus filhos receberão e até quais liberdades poderá exercer.

Talvez seja exatamente dessa apatia que alguns dependam para que a velha pizzaria continue funcionando.

Enquanto isso, discursos, eventos oficiais e propaganda tentam transmitir uma normalidade que já não existe. O país está dividido, desconfiado e cansado de assistir à aplicação de pesos e medidas diferentes conforme o personagem envolvido.
E é justamente aí que chegamos a um dos pontos que mais me indignam.

Militares com quatro ou quase cinco décadas de carreira, homens que prestaram relevantes serviços ao Brasil dentro e fora do território nacional, receberam condenações duríssimas nos processos relacionados aos acontecimentos posteriores às eleições de 2022.

Entre eles estão oficiais-generais que chegaram aos mais altos postos das Forças Armadas.

A Justiça julga condutas. Não deveria destruir biografias.

Esses homens comandaram tropas, formaram gerações de militares, representaram o Brasil em missões, assumiram responsabilidades de Estado e entregaram décadas de suas vidas ao serviço da Pátria. Nada disso pode simplesmente ser apagado da história.

Também me preocupa profundamente a severidade com que determinadas medidas foram aplicadas. O general Braga Netto, por exemplo, está preso desde dezembro de 2024. Outros condenados cumprem penas extremamente elevadas. A própria Lei da Dosimetria aprovada pelo Congresso nasceu do reconhecimento político de que era necessário rever a proporcionalidade de algumas dessas punições.

Não se trata de pedir privilégios. Trata-se de pedir Justiça.

Na minha convicção, o que esses homens vêm sofrendo por crimes que sustentam não ter cometido ultrapassa os limites de uma resposta jurídica proporcional e assume contornos de um revanchismo sem precedentes.

A legislação brasileira prevê progressão de regime, trabalho, estudo, remição e outros instrumentos próprios da execução penal. Eles existem porque o Estado brasileiro não adotou a vingança como finalidade da pena.

Direitos previstos em lei não podem depender do nome do condenado, da profissão que exerceu ou da posição política que defendeu.

Deuteronômio 16:19 nos deixa uma advertência que atravessa os séculos: não torcer a justiça nem fazer acepção de pessoas.

Talvez poucas mensagens sejam tão atuais.

Justiça seletiva deixa de ser Justiça.

A lei precisa valer para o soldado e para o general. Para o deputado e para o ministro. Para o cidadão comum e para quem veste uma toga.

É por isso que volto à velha história da pizza.

Depois de acusações tão graves, conflitos públicos e de uma crise que atingiu o coração do Supremo Tribunal Federal, o Brasil terá respostas ou tudo terminará, mais uma vez, em uma grande acomodação?

Todos os fatos serão apurados? A sociedade conhecerá a verdade?

Ou teremos outra pizza servida entre os poderosos enquanto o povo permanece do lado de fora, assistindo e pagando a conta?

Não desejo o enfraquecimento das instituições brasileiras. Desejo exatamente o contrário.

Quero instituições fortes porque são transparentes. Respeitadas porque respeitam seus próprios limites. Independentes porque não precisam proteger umas às outras. E legítimas porque aplicam a todos a mesma lei.

Como militar, entristece-me ver trajetórias inteiras de serviço à Pátria reduzidas aos últimos capítulos de uma vida. Como parlamentar, preocupa-me ver o Congresso, tantas vezes, menor do que a responsabilidade que recebeu do povo. E, como brasileiro, preocupa-me ainda mais imaginar que possamos nos acostumar com tudo isso.

Vidas dedicadas ao Brasil não podem ser simplesmente jogadas no lixo.

E espero, sinceramente, que também não estejamos jogando no lixo da História aquilo que gerações inteiras lutaram para construir: a confiança na Justiça, o equilíbrio entre os Poderes e o respeito à nossa Constituição.

O Brasil não pode continuar sendo uma pizzaria onde o povo paga a conta enquanto os poderosos dividem a mesa, a cama ou as boates.

Está na hora de levar a República a sério.

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