Por General Girão – deputado federal PL-RN
Na noite de 25 de outubro, ao comemorar sua reeleição na Avenida Paulista, Lula dirigiu-se a André Janones e declarou: “Nosso Exército tem que continuar”. Referia-se ao canal de WhatsApp chamado “Exército do Lula”, usado na campanha. Quatro dias depois, já encerrada a disputa, Lula enviou aos seguidores um áudio pedindo que a mobilização continuasse. Como general do Exército Brasileiro, o que me chamou a atenção nessa fala foi o pronome. De quem, afinal, um presidente da República pode dizer que é o Exército?
Em fevereiro de 2015, durante uma manifestação no Rio de Janeiro, Lula já havia recorrido à mesma imagem. Ao falar de João Pedro Stédile, dirigente do MST, mencionou a possibilidade de ele colocar “o exército dele do nosso lado”. Naquela ocasião, Lula era ex-presidente e falava da mobilização de um movimento extremista. Agora, na Presidência da República, chama Janones de “meu general” e empresta seu próprio nome a um “exército” de campanha que propaga fake news e desinformação. Mudaram o meio e o destinatário. Permaneceu o hábito de descrever a política como uma relação entre comandantes e comandados.
Conheço a diferença entre um canal de mensagens e uma tropa. Conheço também o peso das palavras de quem ocupa a Presidência. Quando um candidato vence a eleição, passa a responder também por quem votou contra ele. Naquela noite, havia milhões de brasileiros esperando ouvir como seriam governados depois de uma disputa difícil. A eles, o que comunica um presidente que pede ao seu “exército” que continue? Para qual missão? Contra qual adversário, se a campanha terminou?
Na vida militar, aprendemos cedo a quem devemos lealdade. Os comandantes mudam, os presidentes concluem seus mandatos e o soldado continua a servir ao Brasil. Seguimos leais à Pátria. É nesse sentido que falo no Exército de Caxias. O patrono lhe dá uma referência histórica de serviço à unidade nacional. Nenhum governante pode lhe dar um dono. O mesmo soldado pode ser chamado a socorrer duas famílias que, na véspera, votaram em lados opostos. Para ambas, o uniforme tem de significar a mesma coisa.
É por prezar essa tradição que me inquieta o silêncio institucional. Vejo o Exército de Caxias acuado no debate público justamente quando o presidente fala com tanta desenvoltura em nome de um “exército” pessoal. A reserva própria dos quartéis impede que eu atribua aos comandantes uma concordância que não expressaram. Mas há espaço, dentro da disciplina e do respeito ao poder civil, para que a instituição fale aos brasileiros sobre sua missão e afirme, com voz própria, a quem serve. Para quem dedicou a vida à farda, faz falta ouvir essa voz.
A responsabilidade política de questionar o presidente, por sua vez, cabe a nós, representantes eleitos. Sou aliado de Jair Bolsonaro, integro o Partido Liberal e farei oposição ao governo Lula. Quem votou em mim no Rio Grande do Norte tem o direito de cobrar firmeza no exercício do meu mandato. Tem igualmente o direito de discordar de mim amanhã. Essa liberdade de escolher, apoiar, criticar e até mudar de ideia é precisamente o que distingue um cidadão de um subordinado.
O Brasil tem um só Exército, o de Caxias. Sua bandeira é a mesma para quem venceu e para quem perdeu a eleição. Espero que seus comandantes tenham serenidade e voz para lembrar isso ao país. E espero do presidente da República um cuidado ainda mais elementar: quando falar como chefe de Estado, que se lembre de que o brasileiro do outro lado da disputa também está sob sua responsabilidade. Reforço a todos os brasileiros que só existe um Exército em nosso país, o Exército de Caxias, o imbatível.